Translate

sexta-feira, 24 de março de 2017

CARNE FRACA, ESPÍRITO FORTE

Dom Reginaldo Andrietta

No Brasil dos dias atuais, a expressão “carne fraca” está sendo utilizada na Operação da Polícia Federal em combate à falsa qualidade de alguns produtos comercializados por frigoríficos de renome nacional e internacional, acobertados por agentes públicos. Evidentemente, essa operação faz sentido. Por que, no entanto, tornou-se pública imediatamente após as grandes manifestações nacionais contra os projetos de Reforma da Previdência e Trabalhista?
O amplo debate sobre essas reformas ficou, de repente, obscurecido. O calor da discussão sobre as mesmas esfriou-se. A grande mídia conseguiu substituir a pauta das reformas, que estava se popularizando e tomando grandes proporções, pela temática da “carne podre”. Enquanto o legislativo federal está em processo de discussão e votação dessas reformas, a mídia burguesa tenta desviar a atenção da sociedade brasileira para a Operação Carne Fraca.
Nesse contexto, vale a pena relacionar o nome dessa operação à fraqueza da carne mencionada por Jesus. Ele, na eminência de ser preso, condenado e morto, vendo seus discípulos adormecidos, lhes diz: “Vigiem e orem para não caírem em tentação, porque o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26,41). Certamente, Jesus se refere à fragilidade humana, experimentada pelos discípulos e por Ele também, na missão confiada por Deus Pai, em confronto com detentores do poder.
Os soberanos judeus, aliados ao Império Romano, após tentarem, sem sucesso, desmoralizar o projeto de Jesus e reprimir suas ações em favor do povo pobre e oprimido, decidem eliminá-lo. Em torno de Jesus surge um grande movimento popular, marcado ainda por incoerências. Muitos o seguem, pensando que Ele irá instaurar um novo governo. O projeto dele, no entanto, é mais profundo, coloca em questão o sistema de vida em sociedade, no seu todo.
Ao pedir a seus discípulos que vigiem e orem porque a “carne é fraca”, Jesus mostra a fragilidade das pessoas e do movimento criado em torno dele. Por isso, exorta os “adormecidos” a acreditarem na força que vem de Deus, colocando-se em sintonia com Ele, função esta da oração. Da sinergia coletiva dos discípulos com Deus, emerge um poder que nenhum outro pode suplantar. Jesus revela que o povo, impregnado do Espírito de Deus, tem condições de vencer as investidas do poder.
Hoje, os cidadãos comuns, pressionados por políticas econômicas que arrocham salários, geram desempregos e suprimem direitos, estão perplexos frente à situação do país. O novo governo, de legitimidade duvidosa, prometia uma retomada do crescimento econômico. Nota-se, no entanto, uma tendência ao agravamento dos problemas. Os empregos prometidos estão sendo ainda mais reduzidos, e os impostos, já altos, estão sendo aumentados.
A perplexidade de nosso povo se funda na confiança defraudada. Os cidadãos se sentem e se tornam, realmente traídos, porque a solução de seus problemas, confiada a seus representantes, têm resultado em fracasso. Por que? Ao transferirem a outrem a responsabilidade de gestão social, sem direcionamento e controle social, renunciam ser sujeitos e protagonistas. A incoerência é de todos que assim atuam. Deste modo, a carne revela-se, realmente, fraca.
Criemos, então, uma nova consciência, divinamente inspirada, que emerge do amplo debate sobre tudo que envolve nossa vida social, sem perder o foco no que é relevante. Debatamos, portando, a respeito de tudo, inclusive sobre a Operação Carne Fraca. No entanto, estejamos agora, focados em manifestarmo-nos frente aos trágicos projetos de Reforma da Previdência e Trabalhista, reagindo coletivamente com sabedoria divina, ou seja, “Espírito Forte”.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Primavera Feminina

PRIMAVERA FEMININA

Oito de março é o Dia Internacional da Mulher. Como as mulheres gostariam de comemorá-lo? Recebendo flores e presentes? Que bom receberem símbolos; melhor ainda serem respeitadas em sua dignidade e reconhecidas em seus direitos, finalidades dessa comemoração oficializada pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1975. Ela surgiu de lutas sociais e políticas, especialmente de mulheres trabalhadoras.
No dia oito de março de 1857, trabalhadores de uma indústria têxtil, de Nova Iorque, fizeram uma greve por melhores condições de trabalho e igualdade de direitos trabalhistas para as mulheres, movimento este reprimido com violência pela polícia. No dia oito de março de 1908, trabalhadoras do comércio de agulhas de Nova Iorque, fizeram uma manifestação para recordar esse movimento e exigir o voto feminino e o fim do trabalho infantil, sendo igualmente reprimidas.
Reconhecendo a importância dessa luta, uma Conferência Internacional de Trabalhadores e Trabalhadoras, realizada na Dinamarca, em 1910, decidiu que o oito de março seria o Dia Internacional da Mulher. Essa data passou a ser ainda mais significativa a partir de 25 de março do ano seguinte, quando um incêndio em uma fábrica têxtil de Nova Iorque, causado por condições precárias de trabalho, matou 146 trabalhadores, sendo 123 mulheres.
Desde então, a luta das mulheres foi se expandindo, possibilitando muitas conquistas, entre as quais o direito ao voto feminino e a cargos públicos. Sua participação na cena eleitoral começou na Nova Zelândia, em 1893; na Finlândia, em 1906; e nos Estados Unidos, em 1919. No Brasil, o direito de voto das mulheres foi estabelecido por decreto, em 1932, e consolidado na Constituição de 1934.
Explorações e discriminações sofridas pelas mulheres, especialmente no trabalho, se tornaram focos de luta. No Brasil, por exemplo, a luta das empregadas domésticas por direitos iguais às demais categorias profissionais, dura cerca de um século; tomou expressão nacional a partir dos anos 50, perpassou os tempos sombrios da ditadura militar e alcançou êxito legal em 2015, no período de uma mulher, representante da classe trabalhadora, como presidente da República.
Apesar das conquistas, as discriminações contra as mulheres continuam alarmantes. No Brasil, seus salários são, em média, 73% dos homens. A diferença é ainda maior para as afrodescendentes. Elas são discriminadas nos cargos e carreiras, inclusive em funções públicas: 52% dos eleitores são mulheres, mas apenas 9,9% da Câmara dos Deputados e 5% do Senado são ocupados por mulheres.
Hoje, no Brasil, os trabalhadores estão correndo o risco de pagar longamente por uma aposentadoria que não usufruirão ou muito pouco. A falsidade apregoada para poder mudar as regras do INSS, alongando o tempo de contribuição e de serviço, visa dar sustentabilidade às empresas que contarão com menos mão de obra jovem, eximindo por mais tempo, tanto elas como o Estado, de partilharem benefícios. As mulheres, como sempre, serão as mais afetadas.
Por isso, até mesmo a ONU realizará de 14 a 24 de março deste ano, debates sobre o empoderamento das mulheres e seu vínculo com o desenvolvimento sustentável, focalizando todo tipo de violência cometida contra elas. Merece destaque nessa luta, a Marcha Mundial das Mulheres que, desde o ano 2000, realiza grandes mobilizações, especialmente no dia oito de março.
Que as flores e presentes no oito de março sejam, portanto, reconhecimentos da “primavera feminina”. Ao lutarem por seus direitos, as mulheres lutam pela sustentabilidade da vida. Essa luta é profundamente cristã, afinal o próprio filho de Deus assumiu a condição humana por meio de uma mulher que se tornou início de uma nova humanidade, sem dominadores e dominados (cf. Lc 1,52).
Jales, 01 de março de 2017.